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As chuchas e o chuchar no dedo. Será que isto vai dar aparelho?

É uma preocupação da generalidade dos pais e uma questão que chega com muita frequência aos dentistas: “O meu filho ainda chucha; será que vai precisar de aparelho”?

Os aparelhos – ou melhor, os tratamentos de ortodontia – são hoje em dia muito comuns. E, de uma forma geral, diga-se, conseguem corrigir todos os problemas que são colocados. A chave para evitá-los é, fundamentalmente, a prevenção.

Comecemos pelo casos das chuchas abandonadas de forma tardia. É relativamente consensual aconselhar-se o adeus à chucha por volta dos dois anos, porque essa é uma idade em que as alterações ósseas provocadas no maxilar ainda são naturalmente reversíveis. Mais tarde, é crescente a probabilidade de ser necessário o tratamento de ortodontia.

Então, e o que fazer para abandonar a chucha, esse objecto tão precioso no conforto e até na estabilidade emocional de uma criança? Por vezes os pais conseguem negociar a chucha apenas para a sesta ou para a noite de sono, levando até ao abandono total. Existem ainda os casos em que se define um calendário até ao dia do adeus; aí, comunica-se diariamente a percepção do abandono à chucha e, no dia marcado, importa não vacilar.

O cenário é muito mais difícil se, em vez da chucha, a criança utilizar o próprio dedo. Nestas situações, o chuchar pode prolongar-se de forma problemática. Não são incomuns casos de consultas com adolescentes de 13 e 14 anos, com necessidade de tratamento de ortodontia, ainda habituadas ao chuchar no dedo.

O chuchar no dedo, além provocar a alteração óssea do maxilar e do posicionamento dos dentes, pode implicar ainda consequências na fala. Para as crianças em que o abandono deste comportamento é mais difícil, existem opções mais e menos convencionais como as dedeiras, os vernizes de sabor, ou até as luvas para dormir... Mas o que nos diz a experiência é que, independentemente da opção, o fundamental é sempre a persistência e a comunicação com a criança.

Se nada resultar, é bom que se diga que usar um aparelho, hoje em dia, não é necessariamente um problema. Mas o processo de tratamento, que por vezes implica alguns anos de duração, é muito mais confortável para todos se os problemas forem reduzidos. Existem estes casos, e depois o aposto, em que até a intervenção cirúrgica pode ser necessária. Daí a importância de uma monitorização atempada por parte do dentista.

Regra geral, o tempo da análise e do diagnóstico faz sempre diferença. Partilho o exemplo de um caso menos frequente, uma pequena paciente de 8 anos a quem, além do deficiente posicionamento de alguns dentes, diagnosticámos uma ausência congénita de 10 dentes. Já na altura de ter a dentição definitiva formada, aqueles 10 dentes pura e simplesmente não apareciam. E não iriam aparecer, porque não estavam lá, nem sequer escondidos!

Foi o facto de estudarmos e percebermos cedo este caso que nos permitiu estabelecer um plano de tratamento, a 10 anos, acompanhando todo o desenvolvimento ósseo, na adolescência e na juventude, minorando ao máximo consequências, não apenas clínicas, mas igualmente de qualidade de vida.

Já aqui escrevemos sobre isso e reforço: é conveniente não desvalorizar a importância de uma primeira consulta no dentista, logo em criança. Muito menos se o maroto aí em casa ainda usa chucha ou chucha no dedo.

Obrigado! E divirtam-se!

Ps: táctica inspirada pelo fim-de-semana: as chuchas são uma invenção dos crescidos para as máscaras de Carnaval!

Gonçalo Dias

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